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A importância do transporte ferroviário para a logística no Brasil

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Publicado em 9 setembro 2025

A logística brasileira enfrenta, há décadas, um desafio estrutural: o país dispõe de um território com dimensões continentais e uma matriz de transporte fortemente dependente do modal rodoviário, cujas limitações – altos custos, desgaste, congestionamentos, emissões de carbono – encarecem o escoamento interno e a exportação.  

 

O transporte ferroviário é um elemento essencial para que o sistema logístico brasileiro se torne mais competitivo, sustentável e capaz de impulsionar o crescimento econômico. Expansão da malha ferroviária, integração com portos, incentivos ao investimento público e privado, bem como atenção regulatória, são aspectos essenciais para que o transporte ferroviário possa cumprir esse papel transformador. 

 

De acordo com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), existem 30.684 km de malha ferroviária operacional concedida, sob 13 concessões federais. Além disso, há 1.740 km em concessão ainda em construção. Em termos de cargas, o modal ferroviário representa aproximadamente 20% da matriz de transporte de cargas do país. Enquanto isso, o modal rodoviário responde por cerca de 58–60% do transporte de cargas.  

 

Governo planeja investimentos no transporte ferroviário 

O governo prepara o lançamento do Plano Nacional de Ferrovias, que prevê a concessão de quase cinco mil quilômetros de linhas e o aumento de 24% para 40% da participação do transporte ferroviário na movimentação de cargas até 2035.  

 

Apesar de não haver lançamento formal completo, já foram divulgadas as bases e os projetos estruturantes que farão parte do plano: quase 4.700 km de novas linhas férreas a serem concedidas à iniciativa privada, investimento estimado em até R$ 100 bilhões, dos quais 20% em contrapartidas públicas. 

 

Os projetos anunciados são o corredor que integra a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) à Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico); o prolongamento da Ferrovia Norte-Sul até o porto de Vila do Conde (PA); a construção do Anel Ferroviário do Sudeste, entre Vitória (ES) e Itaboraí (RJ); a conclusão de 600 quilômetros de trilhos para conectar a Transnordestina à malha nacional; e a Ferrogrão, planejada para escoar os grãos do Centro-Oeste pelo Arco Norte ao longo de 933 quilômetros entre Mato Grosso e Pará. 

 

Empresas concessionárias apontam a importância real dessa malha. Uma delas, que opera na Malha Regional Sudeste (trilhos nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo), transportou em 2022 aproximadamente 178 milhões de toneladas de carga, contribuindo com quase 20% do volume exportado do país e um terço de toda a carga ferroviária.  

 

As principais cargas incluem minério de ferro, produtos agrícolas, siderúrgicos, contêineres, celulose, fertilizantes, produtos que frequentemente demandam transporte em longas distâncias e alta capacidade, exatamente onde as ferrovias se destacam. 

 

A malha operada por grupos privados e projetos ligados à Mineração e à Agricultura têm motivado aportes para modernização e ampliação. Em muitos casos, concessões renovadas trazem contrapartidas de investimentos substanciais, inclusive em terminais, na melhoria da infraestrutura de apoio, em equipamentos modernos. 

 

Custo do transporte ferroviário é muito atrativo 

Um dos argumentos mais fortes a favor do transporte ferroviário no Brasil é o custo por tonelada-quilômetro útil (TKU). Estudo do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS), de 2019–2020, indica que para transportar uma tonelada por mil quilômetros, o custo médio rodoviário chega a R$ 425, enquanto o ferroviário sai por volta de R$ 66. Mesmo com dados mais antigos, essa diferença certamente se mantém, e explica por que, para cargas volumosas e longas distâncias, as ferrovias podem gerar uma economia substancial. 

 

O modal rodoviário tem custos variáveis muito altos (combustível, pedágio, desgaste intenso das vias e dos veículos, acidentes, logística de retorno vazio, etc.). Apesar de ter custos iniciais elevados, como trilhos, locomotivas, vagões, licenças, desapropriações, entre outros, o transporte ferroviário, no médio e longo prazo, considerando externalidades como o impacto ambiental, manutenção urbana, segurança, emissão de poluentes, se mostra muito mais eficiente. 

Principais desafios para ampliar a malha ferroviária 

O primeiro grande obstáculo é o custo de implantação: aquisição de terras, obras civis complexas, adequação de traçado, topografia, aquisição de materiais (trilhos, dormentes, sinalização), obras de arte especiais (pontes, túneis). Essas etapas demandam capital elevado e retorno de investimento que costuma ocorrer em prazos longos. 

 

Outro desafio está na burocracia e nos entraves regulatórios. Licenças ambientais, questões fundiárias, desapropriação, conflitos de interesses locais, regulação urbana são variáveis que retardam ou emperram projetos. A segurança jurídica e previsibilidade de normas são apontadas como fatores que podem destravar muitos investimentos.  

 

A integração entre modais constitui critério estratégico, mas exige infraestrutura de interface eficiente: terminais logísticos, conexões entre ferrovias e rodovias ou hidrovias, integração com portos. A falta dessas conexões aumenta custos de “last mile” (último trecho) e limita o aproveitamento pleno da ferrovia. 

 

Por fim, a manutenção da malha existente é outro grande desafio: muitos trechos estão subutilizados, há necessidade de recuperação de trilhos, modernização de vagões e locomotivas, inovação (tecnologia, automação, sistemas de controle), segurança operacional. Investimentos sem continuidade ou com falta de planejamento podem resultar em ineficiências persistentes. 

Importância da malha ferroviária para a melhoria da logística brasileira 

Quando ferrovias eficientes e bem integradas são utilizadas, os ganhos de escala se traduzem em reduções expressivas de custos logísticos. Para cargas volumosas e distâncias longas, como grãos, minérios, produtos agroindustriais, o transporte ferroviário permite transportar mais tonelagem com menor consumo de combustível por tonelada, menor desgaste de infraestrutura, menor custo por TKU, o que se reflete em fretes menores. 

 

Menos dependência do modal rodoviário também significa menos perdas com estradas precárias, menos avarias de carga, menos congestionamentos, menores riscos de acidentes, tudo isso contribuindo para que o custo real (não só monetário, mas operacional) do transporte sofra menos interferências. Além disso, menor emissão de gases e externalidades negativas ligadas à poluição e conservação de rodovias também agregam valor econômico e ambiental. 

 

A redução desses custos logísticos pode se estender por toda a cadeia de valor: produtores podem auferir maiores margens, exportadores se tornam mais competitivos, empresas internas e nacionais podem investir menos em transporte e mais em produção ou inovação. Isso fortalece a competitividade internacional do Brasil, especialmente em commodities, alimentos, metais, mas também em produtos industriais que dependem de insumos de transporte pesado. 

Como impulsionar a produção e exportação brasileiras 

Fretes menores viabilizam que produtores de regiões mais distantes, ou menos favorecidas, possam escoar sua produção para mercados domésticos ou para os portos com menos perda de competitividade. Isso é especialmente relevante para o Norte e o Centro-Oeste, onde estão grandes áreas agrícolas e mineradoras que sofrem com o alto custo de transporte até os centros consumidores ou portuários. 

 

Exportadores ganham em competitividade internacional porque o custo agregado de logística pesa muito nos preços finais dos produtos. Se reduzir esse custo, o Brasil pode competir melhor em commodities agrícolas, minerais, produtos manufaturados com conteúdo de matérias-primas, agregando valor interno. Além disso, isso pode estimular investimentos, geração de empregos e desenvolvimento regional, já que ferrovias tendem a gerar polos logísticos e industriais ao longo de seus traçados. 

 

Também existe efeito multiplicador: quando um produtor percebe que o transporte até o porto custa muito menos, ele pode investir mais em escala, investir em infraestrutura local (armazéns, silos), melhorar produtividade, padronização e qualidade, abrindo possibilidades de novos mercados. 

 

Como a engenharia consultiva contribui para desenvolvimento do setor ferroviário 

A Tractebel, atuando no âmbito de engenharia consultiva, pode oferecer um leque de serviços essenciais para que os projetos ferroviários atinjam eficiência, segurança e sustentabilidade: 

 

Estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental: avaliação de demanda de transporte de carga, modelagem de tráfego ferroviário, análise de custo-benefício e retorno de investimento, estimativas de demanda futura, análise de competitividade frente a outros modais, identificação de impactos ambientais e estratégias de mitigação 

 

Projetos de infraestrutura: traçado da via, projeto geométrico (curvas, inclinações, drenagem), engenharia de terraplenagem, pontes e viadutos, terraplenos, bases de dormentes, fundações de trilhos, especificação de trilhos, sinalização, sistemas de eletrificação (onde aplicável), estações de carga e terminais logísticos

 

Integração modal e logística de interface: planejamento de terminais portuários, interfaces ferrovia-portuário, terminais de transbordo e pátios de manobra, integração entre ferrovia e rodovia para o último trecho, soluções para minimizar custos de transbordo e facilitar o transporte intermodal 

 

Gestão de obras e licenciamento: assessoramento nas licenças ambientais, autorizações regulatórias, diagnóstico fundiário, diálogo com comunidades locais, avaliações de impacto, segurança operacional, planos de recuperação ambiental, gestão de resíduos e rejeitos 

 

Modernização e manutenção: auditoria da malha existente, reabilitação de trilhos, modernização de sinalização, introdução de tecnologias de controle digital, monitoramento por sensoriamento, manutenção preventiva e preditiva, otimização de operações

 

Consultoria em políticas públicas, financiamento e modelos de parceria: elaboração de estudos regulatórios, estruturação de concessões ou PPPs, estudo de modelos de tarifação, captação de recursos nacionais e internacionais, estruturação de contratos de serviços, apoio em segurança jurídica e mitigação de riscos 

Potencial do transporte ferroviário é enorme 

O transporte ferroviário é uma peça-chave para a transformação logística do Brasil. Ao proporcionar redução significativa de custos para cargas de grande volume e longas distâncias, bem como ganhos ambientais e operacionais, ele pode representar um divisor de águas para a competitividade do país, especialmente em agronegócio, mineração e exportações.  

 

Contudo, para alcançar esse potencial é preciso superar desafios complexos: investimento contínuo, coordenação regulatória, expansão inteligente da malha, integração efetiva com os portos e modais de apoio. 

 

Oferecemos expertise em engenharia consultiva, que tem papel essencial nesse processo, ajudando a desenhar projetos viáveis, sustentáveis e bem conectados.  

 

Com políticas públicas consistentes, parcerias privadas fortes, e visão estratégica, o Brasil tem uma oportunidade concreta de baratear sua logística, adaptar-se às exigências globais de sustentabilidade e impulsionar sua produção exportadora, reduzindo desigualdades regionais e estimulando crescimento com base em infraestrutura eficiente.